12 Feb 2010
Grande Reportagem – Respostas às respostas
Estive a ler com atenção a entrevista do André Antunes na rubrica “Heads Up” do pokerpt.com e considerei que devia fazer um comentário.
Mas em primeiro lugar, gostaria de dar uma palavra a todas as pessoas que leram e comentaram os posts anteriores. Sinto-me deveras honrado por terem dado atenção ao que escrevi. Confesso que fiquei admirado por tantos comentários e completamente pasmado com o número de visitas que a minha página teve nos 2 primeiros dias de vida. Não estava nada a contar e, por isso, muito obrigado a todos!
2 esclarecimentos
Ainda antes de passar à minha análise da entrevista, sinto-me na obrigação de fazer um aparte para salientar 2 pontos:
- os repórteres que conheci nas Bahamas pareceram-me excelentes pessoas e adorei falar com eles. Tanto o André como o Fernando mostraram-se amáveis e acessíveis. Outra coisa, tal como o André mencionou no “Heads Up”, era notória a sua preocupação pelo trabalho;
- Na sua resposta ao Jomané, o André tem razão. Quando referi, no PokerPT que, “…Numa delas, na praia, tivemos uma longa conversa em que me desmarquei várias vezes desta imagem que estiveram a dar.”, não queria dizer que foi à frente da câmara e de microfone em punho. Nessa ocasião, enquanto a Célia fazia umas tranças, se bebia uma água de coco e íamos à água, falei com eles bastante tempo sobre poker, jornalismo e a responsabilidade de fazer uma reportagem destas. Numa outra ocasião, no aeroporto, falamos sobre a minha experiência e carreira enquanto jogador, mas em nenhuma delas de forma, digamos, “oficial”. Eles não mo propuseram e, obviamente, não me fiz de convidado. Percebi que isto gerou um mal-entendido em algumas pessoas, nomeadamente no Jomané e no Tiago (Addict), mas ainda não tinha tido a oportunidade de esclarecer a questão convenientemente.
A entrevista
Comentando apenas as ideias que me parecem mais pertinentes:
- Começando pela pergunta que eu coloquei, o André refere na sua resposta que “Acho que a questão da imagem que passa depende de cada um de nós, da nossa forma de ver as coisas e do nosso grau de distanciamento em relação aos acontecimentos”. Posso até aceitar que, nesta questão, me falta distanciamento e “know-how” para avaliar adequadamente a reportagem, mas não me foi difícil assimilar a percepção que a peça gerou na opinião pública: a minha mãe ligou-me a acusar-me de a ter enganado este tempo todo e, imensamente preocupada, sugere que eu procure ajuda rapidamente; os meus amigos menos conhecedores saem-se com uns “afinal, isso não é assim tão saudável” ou “a SIC arrasou com a vossa classe”.
- O André refere que nós não compreendemos o carácter isento da reportagem porque “nós apenas mostrámos os vários lados de uma realidade que muitas pessoas parecem desconhecer ou simplesmente ignorar”. Bem, eu posso ter uma visão condicionada por estar no meio, mas não me venham com histórias que a peça balanceou os 2 lados. Começo a achar que o André é que não percebeu qual a razão de tanta indignação. Pelo menos no meu caso, não estava a contar que saísse uma promoção ao jogo. Acharia igualmente mau que se passasse uma imagem errada do jogo como “eu tive vários contactos no sentido inverso, ou seja, de pessoas que acham que o poker é dinheiro garantido”. Mas seria razoável que se mostrasse que uma grande parte dos jogadores profissionais que estavam nas Bahamas, trabalham imenso e estudam para terem resultados que lhes permita estar nos melhores torneios e que isso é tudo menos fácil. Que esta modalidade é exigente e que, como em tudo na vida, seja no trabalho, seja no desporto, os bons tendem a sair-se bem e os maus estão condenados ao insucesso.
- - “Mas olha que daquilo que vi e do que se passa em muitos cafés, bares e outro tipo de casas, o video poker é um fenómeno impressionante (como se percebe naquele armazém da inspecção de jogos). E quem joga aquilo diz que joga poker.”;
- “E assim como há o grande fenómeno do Texas Hold’em em Portugal há também outros associados ao poker num sentido mais geral. E o trabalho era sobre poker.”
- “…como há milhares de jogadores de texas hold’em também há milhares de jogadores de video poker, omaha, etc. Quisemos ir ao PCA para ver e mostrar a vertente máxima dos jogadores profissionais”
Isto é que é mau! Está-se a misturar alhos com bogalhos, não pode ser. O André sabe bem que “vídeo poker” e poker são coisas completamente distintas e incomparáveis e encontrar argumento na definição da lei não é desculpa, porque a lei trata muitas coisas diferentes de forma igual. Na prática, apesar de ser no sentido inverso, isto não foi muito diferente de começarem a reportagem com uma imagem da sala e dizer: “Bem-vindos ao torneio de vídeo poker das bahamas”. O Cristiano Ronaldo é um excelente jogador de futebol, mas não o ponham num encontro de “Super Bowl” a fazer passes com a mão com uma bola bicuda. E não deixa de ser futebol… americano. (Até me sinto ridículo a escrever isto, enfim…)
- “Sabia que quanto mais se joga maior é a probalidade de perder dinheiro?”
E foi preciso fazer um estudo para isso? Tentando ser breve e não indo muito ao fundo da questão, quando se joga poker (seja qual for a vertente, excluindo as máquinas, obviamente), quer seja online ou offline, há sempre uma comissão envolvida. Isso significa que – exceptuando casos particulares de jogadores com bons acordos com as casas – o poker é um jogo de soma negativa. Isso quer dizer que, se um jogador não tiver “edge” sobre os restantes, vai perder a longo prazo. Mas a novidade aqui é que o poker não é só sorte e todos jogam diferentemente, por isso uns vão ganhar e outros vão perder.
Isto só mostra que quem fez o estudo e quem o comenta sabe muito pouco do que está a falar.
- Relativamente às perguntas do Wade:
“Eu disse apenas que no consultório daquele psicólogo especializado em jogo o número estava a crescer e que o um quarto dos pacientes dele já eram de poker online. E que ao jogadores anónimos também estavam a chegar mais pedidos de ajuda (disse isto por outras palavras).”
Concordo que o número cresça, é natural que assim seja, uma vez que há meia dúzia de anos não havia poker sequer. A questão aqui é que se o poker já não é bem aceite socialmente, esta parte da peça não vem ajudar em nada. Não tenho dúvidas que o fenómeno do vício do poker (para quem tiver problemas reais com o jogo) é irrelevante quando comparado com outros vícios socialmente bem aceites, como sendo o tabaco ou a bebida. Corre-se o risco de haver interpretações do género: “o poker é o novo flagelo do século XXI e apenas estamos a ver o início do boom” e isto não me parece que seja uma boa interpretação.
- “Não faço ideia onde se perde mais dinheiro, mas acredito que se seja no euromilhões”
Basta atentar no seguinte: no euromilhões são distribuídos 50% dos valores investidos, no poker são distribuídos perto de 95%. Mas a televisão faz publicidade ao euromilhões, por isso está tudo bem. Já agora, estive a fazer as contas e a probabilidade de ganhar o euromilhões é de 0,0000013%. Isto deve dar várias vidas a jogar todas as semanas e muitos boletins para se poder ter uma expectativa minimamente razoável.
- “ E desse ponto de vista, não podia ignorar o facto de haver milhares e milhares de equipamentos que são apreendidos, que são usados indevidamente para sacar dinheiro às pessoas, sem qualquer tipo de controlo, e que estão espalhados em milhares de cafés, bares e outro tipo de casas por todo o país.”
A bem da elevação do meu blog, não posso, mas só me apetecia dizer que são estas máquinas e… as chamadas de valor acrescentado da SIC… (ups, já disse!)
Resumindo
Em suma, o André mostrou toda a coragem em dar a cara e tentar esclarecer a comunidade do seu trabalho, e isso é apreciável. No entanto, sou da opinião que as suas respostas acabam por ser fracas desculpas para um trabalho mau, confuso, tendencioso e gerador de conflitos que em nada abona a favor da modalidade que tanto prezamos. E não posso concordar quando diz que “ O que é pena é que muitas vezes, as pessoas só olhem para um lado quando lhe são mostrados vários”, porque aqui claramente se distinguiu um lado, o negativo. No fundo, já não faltavam os existentes, vem-nos trazer ainda mais problemas e o poker português, que está em crescimento, não precisava disto. Por inerência à ética profissional de um jornalista, a última coisa que ele deve ser é um “opinion maker”, mas considero que, neste caso, o André Antunes e a sua equipa foram-no. Este deve ser a acusação mais dura que se pode fazer a um jornalista, mas aqui é, quanto a mim, merecida.
PS – “O programa foi visto por 1.200.000 espectadores, aproxidamante.” – Isto é que me deixa doente…

Quem fala assim não é gago, óptimas palavras Tomé, no heads up desta noite fico com duas ideias, das duas uma, ou o André Antunes ainda não entendeu bem o que é o poker (texas holdem etc) e a sua distinção de video poker roleta etc, ou então fingiu que não entendeu, e usou os argumentos da lei para justificar a inserção dos aspectos negativos, completamente desnecessários e desenquadrados com o tema da reportagem, e com o que deveria ter sido abordado, no entanto não deixa de ter mérito por ter aparecido no HU. Mas no fim de contas acho que a conclusão é “SIC(K) reportagem”.
João Borges
February 12th, 2010 at 05:52permalink
Caro Tomé,
Não houve interesse da equipa de reportagem da SICK em falar contigo “oficialmente” porque nas conversas que mantiveste com eles passaste a imagem de uma pessoa inteligente, equilibrada, como uma vida familiar estável e que passaria uma excelente imagem do poker. Ainda por cima com o teu “background” de professor, e a forma como sabemos que te expressas, irias contra a linha que, infelizmente, já todos percebemos que estava subjacente ao trabalho.
Abraço e tudo de bom.
Hooligato
February 12th, 2010 at 09:52permalink
Parabéns pelo teu blog. Partilho inteiramente da tua opinião.
OverRaider
February 12th, 2010 at 11:13permalink
Olá Tomé
Parabéns pelo percurso, pela Gabriela e desejo-vos saúde para a longa caminhada nesta vida.
Quanto a este tema da GR, muito bem analisado por Si, só me resta acrescentar da minha grande preocupação por o Sr André estar a formar novos jornalistas.
Boas mãos! Melhores jogadas!
binladybug
February 12th, 2010 at 12:33permalink
Mais um grande texto Tomé.
Concordo com o hooligato, pessoas como tu não interessavam para os objectivos desta reportagem.
Abraço e boa sorte … seu viciado
Paulo Barbosa
February 12th, 2010 at 15:06permalink
Concordo plenamente com tudo que foi escrito tome.. e fiquei muito contente de ter visto a reportagem com os meus pais e não ter sido alvo de qualquer julgamento, felizmente consegui educar os meus familiares sobre o “nosso” Poker ( e não outros), e eles mesmo tendo ficado confusos com algumas afirmações que a reportagem nos trouxe, tentando ser imparciais consideraram a reportagem exagerada, despropositada, desinformada e pessimista. E por terem controlo sobre a minha conta bancária, porque os informo de todos os meus resultados, não emitiram qualquer julgamento mau que a reportagem poderia influenciar e confiam plenamente no meu julgamento quando decidi participar desta actividade que em termos de competição, dedicação, interesse e disciplina é tão rica (Parece uma possível definição para desporto? pois esperemos que um dia seja assim entendido).
Agradeço te também tome, porque nos últimos tempos tenho estado atento à tua carreira, e a ideia que tenho é de uma total entrega, dedicação e respeito pelo que fazes.
Abraço e excelentes resultados ^^
João Rodrigues
February 12th, 2010 at 15:54permalink
Tomé…
Vocês (os que estavam nas Bahamas) estavam condenados desde o principio.
Acredita quando te digo que a reportagem estava encomendada pelos Casinos Nacionais (com o de Lx/Estoril á cabeça)…. Ver mais
O Governo está a estudar o jogo online, com vista a regulamentar ou legalizar (ou não). A prova disto é a recente viagem do Luis Patrão (Turismo de Portugal) a Las Vegas.
Ainda nestes dias têm surgido noticias sobre a regulamentação das apostas desportivas.
Ora…. o lobby dos casinos, tinha de usar o seu poder junto dos media (quem pode abdicar das receitas publicitárias???? ) e ENCOMENDAR uma reportagem que defendesse os seus interesses.
E acredita que a história não acaba aqui!!!
PS – Isto tem forma de combater, mas não é conversa para aqui
Paulo Vieira
February 12th, 2010 at 16:53permalink
Excelente exposição. Obrigado
aeroporto
February 12th, 2010 at 19:52permalink
Independentemente de concordar ou discordar com a reportagem e com a opinião de quem acha que ela transmite uma visão distorcida do poker, quero felicitar-te pelo blog.
Fazem falta mais blogs com boa qualidade de expressão, como já esperava que o teu fosse mesmo antes de o ler.
Quanto ao tema, eu não discuto reportagens com jornalistas, assim como quem joga poker profissionalmente não devia discutir poker com quem não o faz. Quem vive no meio ganha em argumentos mas perde claramente quando não consegue fazer passar a mensagem. Teimar com uma parede tem sempre um efeito ricochete, porque não ouve e nunca será receptiva aos nossos argumentos.
Alguém discute uma má jogada de poker feita por quem se mostra pouco preparado para o que está a fazer…? Para um profissional não há pior castigo que ignorarem o seu trabalho…ainda mais quando é mau…
Abraço
Caesar
February 13th, 2010 at 02:25permalink
Boas TC
Por causa desta reportagem confesso que tenho sido leitor mais atento de fóruns da PokerPt e agora do teu blog, pois deixou-me bem revoltado como todos vocês.
Disseste tudo como devias dizer a tua opinião está de acordo com a minha,também eu não gostei do “Heads-up”, achei que teve tempo para dar as respostas com muita calma( o que em directo desconfio que ía meter os pés pelas mãos), e ainda me deu mais a sensação do que já estava á espera, plena arrogancia e puro snobismo, do tipo eu é que sou o senhor jornalista, eu é que tenho razão e vocês podem estar aí a comentar o dia todo que não me vai afectar em nada!!!
Só espero ver o dia que este país tome uma decisão séria em termos de lei para jogarmos poker onde quer nos apeteça, pois seria uma boa “facada” para esse pseudo-jornalista de 2º catogoria!!!
Como é possível este individuo ser Editor-Executivo da Informação da SIC?????
“Deus dá nozes a quem não tem dentes!!!”
Um abr4ço ao TC e a todos os que gostam de poker!!!
Padretopa
Padretopa
February 13th, 2010 at 19:22permalink
Este Blog tem como objectivo armazenar os links dos inumeros blogs de Poker de jogadores portugueses que existem na blogosfera, e assim qualquer um poderá acompanhar/consultar as actualizações diárias de cada blog.
http://blogsdepokertugas.blogspot.com/
Adciona á tua lista de blogs, se quiseres.
Abraço
tiago
February 15th, 2010 at 18:59permalink
Caríssimo Tomé,
Antes de mais, devo dizer que é um prazer ler um blog tão bem escrito, algo que infelizmente rareia por essa internet fora.
Eu não vi a tal reportagem portanto se calhar devia era estar quietinho e falar só depois de a ver (agora tenho mesmo de a ver), mas pelos comentários percebo a revolta de quem se dedica ao poker e consegue bater o jogo.
Parece-me, porém, que a revolta de algumas pessoas advém também do facto de provavelmente terem uma expectativa de serem apresentados como uns fenómenos com inteligência muito acima da média (o que não seria mentira nenhuma) e que conseguem ter rendimentos muito acima daqueles que conseguiriam se tivessem uma carreira profissional dita normal (a não ser que tenham sido da JS) e levam uma vida fácil e cheia de luxos, o que é verdade apenas para uma muito pequena percentagem das pessoas que jogam. Não seria incorrecto se fosse essa a imagem passada, mas aí seria uma reportagem sobre o mundo do poker profissional e não sobre o poker em geral.
Há que ter em conta que o poker é um jogo de soma nula com 2 actores: os jogadores e a casa. Como a casa ganha sempre, o jogo passa a ser de soma negativa. E o jogador que perde representa cerca de 70% das pessoas que jogam poker. E esse lado também teria de ser mostrado. Creio que é aqui que a reportagem se equivoca. Em vez de falar com jogadores de poker perdedores viciados neste jogo – porque certamente também os há – , meteu-se pelo caminho do video-poker e meteu completamente os pés pelas mãos.
Para resumir, creio que a reportagem, se quisesse ser isenta, poderia ter apresentado os jogadores profissionais (naturalmente vencedores), jogadores ocasionais que jogam pelo prazer quer ganhem quer percam, e jogadores perdedores que não conseguem abandonar o jogo (viciados, portanto). Isto sim, seria uma reportagem sobre poker.
Queria ainda salientar que as bolsas de acções e de derivados também são jogos de soma nula. Há pessoas que vivem desse jogo e há pessoas que torram fortunas e arruinam vidas. No entanto, a sociedade encara o poker e a bolsa de forma completamente diferente. Quem joga poker é um jogador, quem joga na bolsa é um investidor. Provavelmente se ganhasses a vida a jogar na bolsa a tua mãe não estaria de pé atrás com a tua profissão…
Fico à espera que comeces a falar do estilo de vida de um jogador de poker profissional, pois isso é algo em que tenho pensado bastante nos últimos tempos e gostava de saber qual é a tua abordagem, quais os prós e contras, soluções para problemas, etc.
Grande abraço e boa sorte!
Nuno Geraldes
February 18th, 2010 at 15:58permalink