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26 Feb 2010

O poker e a felicidade

Posted by Tomé Moreira

Depois de tanto se falar sobre os malefícios do poker, é altura de responder a tanta carga negativa e olhar para o outro lado. Há dias, em conversa com um amigo, ele perguntava o que eu diria se fosse entrevistado pelos repórteres da SIC. Respondi que poderia falar dos meus métodos ou, em termos pessoais, dar o meu testemunho. Decidi, então, personalizar este post, até porque muitos se deverão reconhecer em alguns aspectos da minha experiência de vida, aliando por fim uma perspectiva com aproximação o mais científica possível.

O que é a felicidade?

A minha educação foi tradicional. Como a grande maioria dos jovens deste país, fui orientado para uma vida fundamentada nos valores do trabalho e da honestidade e com os objectivos de tirar boas notas para me tornar num profissional bem sucedido e ascender ao topo da carreira, casar-me e ter filhos. Cristamente, devemos também ajudar o próximo sempre que possível. Esta é a receita que a nossa sociedade recomenda para atingirmos a felicidade e tudo o que se desvie deste padrão não é bom. As pessoas são impelidas a seguir este modelo de sucesso e formatadas para comportamentos com vista a um fim comum. Tornamo-nos, quase como fantoches manipulados e coagidos a realizar acções socialmente pré-determinadas e esquecemo-nos basicamente daquilo que, na essência, nos distingue como seres inteligentes. Esquecemo-nos de pensar!

O meu percurso

Há um ano, era algumas vezes questionado sobre a possibilidade de me tornar profissional. Ao mesmo tempo que respondia que isso não estava nos meus planos, pensava para comigo que tal nunca iria acontecer. O poker não é algo socialmente bem aceite e isso, por si só, era argumento suficiente para descartar a possibilidade. Mas no fundo, reservava a secreta esperança de um dia mais tarde, ter tempo para me dedicar, por um período de tempo, por inteiro a uma actividade de que gostava, de ter tempo para planear o que jogar e fazê-lo bem, de ir a torneios ao vivo, aliando o poker à paixão de conhecer novas gentes e novos locais. Sem medos nem preconceitos.

De facto, já tinha dado um primeiro passo para levar o poker mais a sério. Estive a trabalhar 7 anos numa empresa e, para o fim, já tinha uma posição de algum relevo, com muita responsabilidade e que me ocupava muito tempo. Para além de andar sempre preocupado e sem tempo, muitas vezes levava trabalho e chatices para casa. Lembrando-me da minha formação e gosto educacional, resolvi dar um passo corajoso e mudar radicalmente a minha vida: larguei a empresa e fui dar aulas. Este passo permitiu aliviar os meus dias e acima de tudo, trouxe-me mais tempo e relaxamento. Mais tempo para a família, para os hobbies e para o poker, mais relaxamento para me dedicar de forma mais compenetrada às sessões. Se já era um jogador ganhador, esta alteração de rotinas mostrou-me claramente que nunca iria ganhar tanto dinheiro em nenhuma profissão como no poker, bastaria eu querer.

A crescente participação nos torneios, mostrou-me o lado saudável do poker. Pessoas completas e realizadas jogavam sem complexos. Fiz amizades e deixei os preconceitos completamente de lado. As circunstâncias acabaram por me conceder o privilégio de me dedicar exclusivamente ao poker desde Setembro. A grande maioria das pessoas com planos para o futuro, vai adiando os seus projectos até ser tarde demais. Eu resolvi que era a altura de  viver a vida em plenitude desde já. Ponderei passar apenas alguns meses na experiência, mas, para já, estou a gostar.

O contributo do poker para a felicidade

Hoje em dia está na moda avaliar os níveis de felicidade e criar receitas para fazer crescer esse barómetro. Existem centenas de livros sobre o assunto. Sinceramente, parece-me uma parvoíce parametrizar algo como o bem-estar e a felicidade, mas, os peritos parecem unânimes em apontar alguns aspectos como essencias: um bom suporte social, liberdade, tempo e aprendizagem parecem ser alguns dos ingredientes para moldar uma vida feliz. Vejamos, de que forma o poker pode contribuir para estes factores:

Rede Social

Neste aspecto, pessoalmente, o poker não me trouxe muito de novo. Nem precisava. Tenho excelentes amigos e de longa data e uma família óptima, mas acima de tudo, tenho em casa, as 2 meninas mais bonitas do mundo. Genericamente, o poker gera comunidades e isso significa conhecer novas pessoas. Logo, novas amizades.

Liberdade

Este parâmetro está normalmente associado também à independência financeira e, para um jogador ganhador, o poker vai ser trazer uma melhoria qualitativa. A quantidade de opções aumenta enormemente no sentido do poder de compra e também na flexibilidade de horários uma vez que nos tornamos patrões de nós próprios, mas diminui noutro porque, uma vez que o jogo não se encontra ainda regulado surgem, eventualmente, algumas limitações.

Tempo

No meu caso, e intrinsecamente ligado ao factor anterior, o poker trouxe uma verdadeira revolução à minha vida. Que bem que sabe poder sair às 3 da tarde com a minha filha até ao parque ou à piscina, fazer compras de manhã ou visitar a família a meio da semana. Decidir quando começar a trabalhar e quando parar. Considero-me verdadeiramente privilegiado neste aspecto porque sei que gozo de algo raro.

Aprendizagem

Segundo os especialistas, as pessoas sentem-se mais felizes quando aprendem algo novo. Pois, nunca li tanto na minha vida como agora e no último ano já saí do país para ir a San Remo, Las Vegas, La Toja, Londres, Varsóvia, Praga, Bahamas, Paris e Deauville. Em cada local tive a oportunidade de viver novas experiências, em alguns deles juntamente com a minha esposa.

Resumindo

Não era minha intenção fazer deste post uma propaganda ao poker, alimentar a ideia de que são só benefícios, passar a ideia de que é um jogo fácil e incentivar à sua prática. Tudo isto é falso obviamente e para se ser bem sucedido, é necessário muito trabalho e dedicação. Existem também vários problemas e dificuldades que podem advir para todos os factores mencionados e que serão depurados noutros posts, mas hoje era dia de falar de felicidade.

Numa altura em que praticamente todos os meus amigos parecem insatisfeitos com as suas vidas profissionais – os que trabalham em empresas só pensam no dia em que mudarão de emprego e os que dão aulas já não podem com a impertinência e má educação dos alunos e estão cansados das mentiras do nosso governo – eu atravesso uma altura de vivência plena da vida e, não há dúvida, o poker teve um contributo inestimável.

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4 Responses to “O poker e a felicidade”

  1. Eu já te disse isto anteriormente e volto a reafirmar, a elevada qualidade ao nivel da escrita que apresentas é uma dádiva para quem quer aprender algo mais sobre este maravilhoso jogo que é o Poker, mas de uma forma completamente diferente ao que estamos habituados.
    Pareces o Benfica, fresco e leve que nem uma alface ;)

    Vou só dar aqui a minha singela opinião sobre o que deve ser o poker (a meu ver):
    Sigo atentamente vários blogs de poker nacionais e não só, principalmente porque gosto muito de ler, e parece-me que há muitas pessoas que acabam por ligar demasiado ao seu umbigo, e acabam por ser muito minimalistas em relação a este jogo, e não ver o “all package” que o poker encarreta.

    Acaba-se por dar muita importancia aos pormenores do jogo de poker – “levei uma bad beat onde perdi isto”, ou “tou numa downswing enorme”, “aquele donk n joga nadinha”, mostram-se gráficos e tabelas de tudo e mais alguma coisa, para mostrarem o bom ou mau jogadores que são (eu admito que sou péssimo) e esquecem-se das coisas realmente importantes que se conseguem tirar do facto de se estar numa mesa com outras pessoas: a amizade e a tal felicidade de que falas no teu post.

    Quando chegar o dia em que a malta não se possa encontrar nas casas uns dos outros, para beber umas cervejas, dar um par de bad beats uns aos outros, e passar um bom bocado, parece-me a mim que o poker perde todo o sentido.
    Temos que usar o poker para nosso benificio, para nos divertirmo-nos, passar bons tempos com ele, e não o contrário.
    Eu falo por mim, apesar de ja ter conseguido um outro resultado mais ou menos significativo (para a minha carteira) no poker online, os melhores momentos que o poker me proporcionou foram as inumeras horas de diversão passadas com os meus amigos no carteado. E esses bons momentos, não há dinheiro nenhum do mundo que o pague.

    Abraço

    Yerlow [amigo do David Moliceiros]

    Nota: Sinceramente, acho que a médio-prazo deverias ponderar seriamente o escrever um livro de Poker, abrangente, como os assuntos que tratas neste (ainda novo) blog.

     

    tiago

  2. *acarreta

     

    tiago

  3. O engraçado aos ler os teus posts é que sentimos (eu sinto, e muitos devem sentir) que consegues traduzir o que sentimos em cada palavra, e realmente é isso que é a escrita!

    A primeira vez que joguei poker foi também com amigos, só depois passei para o poker on-line, e cada vez que jogo live o poker torna-se realmente melhor, concordando ali com o tiago!

    Na bela e o paparazzo, outro filme português que aconselho vivamente!, alguém dizia ” as pessoas passam a vida a decidir que vão tomar decisões, como se a própria decisão de tomar decisões, fosse uma decisão ” algo do género! ficou-me na memória, o que é bem verdade, é o típico “amanha”, e depois amanha, diz-se novamente “amanha”.

    Parabéns pela coragem, e também pela confiança, de não passares anos a dizer “amanha”. Abraço.

     

    Alexandre

  4. Tiago, penso que on-line, nas mesas, não há o convivio como live.. tenho de discordar de ti, eu próprio posto gráficos para demonstrar como estou no momento, etc etc, mas não me esqueco do convivio live, nunca me queixei duma badbeat ao vivo!

    São duas coisas completamente separadas na minha opinião, não realçaste bem a diferença, porque live nem dá para postares os gráficos. Para mim existe o on-line, onde eu próprio posto gráficos, onde eu proprio digo que é donkey, onde não existe convivio nas mesas (só nos torneios nacionais dos fóruns entre tugas mas isso até eu jogo para o convivio com a malta), e depois existe o live, onde não me queixo das badbeats, onde é na boa onda jogar..

     

    Alexandre

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