22 Apr 2010
Etapa Chaves – Abril 2010
Esta foi mais uma etapa regular do circuito, disputada em Chaves. Desta vez, o torneio correu bastante bem e consegui o meu melhor resultado no circuito até ao momento ao perder apenas no HU final.
O primeiro dia do torneio nem começou muito bem, estando grande parte do dia abaixo da média. Numa mesa com conhecidos e desconhecidos, a ideia era ver bastantes flops enquanto a stack estivesse confortável e tentar arranjar algum spot que me permitisse manter acima das 50 BBs por mais tempo tentando contrariar um pouco a natureza turbo destes torneios.
O problema desta estratégia loose é que, ao jogarmos mãos marginais, vão surgir, frequentemente, situações que nos obrigam a colocar fichas na mesa, apesar de precisarmos que a nossa mão melhore (por exemplo, nos projectos). Se as coisas correrem bem, vamos aumentar significamente a nossa stack, mas, caso contrário, corremos o risco de ficarmos shorts rapidamente. No entanto, a estrutura deste torneio justifica claramente os riscos. Pois bem, neste caso, falhei vários draws (projectos) e fui decrescendo. Cheguei a ter apenas 5 mil fichas e fui allin com AJ no botão, recebendo de pronto call do Lino Cunha com TT e sendo miraculosamente salvo numa board AT8 9 Q! Esta mão acabaria por dar um mote para uma segunda parte do dia muito boa ajudado por algumas boas mãos em momentos cruciais, terminando o dia com 270 mil fichas em 2º lugar na contagem geral. Houve várias mãos interessantes, mas, para o post não ficar excessivamente grande, desta vez colocarei apenas algumas mãos do dia 2.
Dia 2
Fui colocado numa mesa de shorts. Tirando a minha, a maior stack da mesa estava abaixo das 10 BBs. Isto não era bom nem para eles, nem para mim, porque, apesar de estarmos próximos da bubble, qualquer pretexto seria válido para os meus adversários apostarem a sua stack de forma a tentarem sair da situação complicada em que estavam. Isto obrigou-me a jogar apenas mãos que me permitissem pagar os allins. Rapidamente, uns shorts foram perdendo e outros foram saindo do buraco e o torneio tornou-se mais jogável. As blinds estavam gigantes e, lentamente, comecei a abrir alguns potes, principalmente nas blinds das maiores stacks. Inclusivamente, tive uma mão (JJ) que me permitiu eliminar a bubble.
Com a entrada no dinheiro, sentou-se à minha esquerda outra “big stack” na mesa, o Paulo Sarmento. Eu já sabia que ía “haver molho” e teríamos de resolver rapidamente quem ía mandar na mesa. À sua 3ª abertura (em UTG), dei-lhe 3bet e ele, felizmente (porque eu tinha pior), largou 99. O Paulo é muito bom jogador, mas do que conheço dele, tende a jogar também com o ego, por isso, ao abrir no botão, já sabia que deveria levar 3bet e assim foi, larguei sem problemas. Surge então a seguinte mão:
Blinds a 5k/10k e tenho 370k e o Sarmento à volta de 260k. Tenho a melhor mão do dia (KK) em UTG e abro o pote para 22k e ele dá-me 3bet (55k). Há um call allin entretanto e a acção volta a mim. O Sarmento tem 26bbs e já investiu 5.5bbs (praticamente na fronteira do “commitement”). Ou seja, qualquer subida da aposta do meu valor vai obrigá-lo a decidir se “joga para a stack” sabendo que eu já não desisto. Ora, um 3bet dele a uma aposta minha tem um range bem grande pelo que, se quero extrair mais algumas fichas, em princípio, vou precisar de algum tipo de ajuda da board, por isso, a jogada superior nesta situação é, claramente, o call.
O flop vem 8♥8♦9♠. E ambos “check”.
O turn é um 2♠ e aqui já não faz sentido em continuar sem apostar e meto cerca de 1/3 do pote, recebendo imediatamente allin do Paulo. Dou “snap call” para ver A♠T♠ na sua mão para flush draw. Ganho ambos os main e side pots e fico chip leader do torneio.
Já sem jogadores agressivos, foi relativamente fácil abusar um bocado da mesa e ir aumentando a stack. Entretanto, com 20 jogadores, a mesa fecha e vou para uma nova mesa. Na nova mesa, a estratégia continuou. Fui abrindo alguns potes, mas sem exagerar enquanto a mesa estivesse muito cheia. Foi então que perdi uma boa parte da stack numa mão que viria a ser muito aplaudida pelos flavienses presentes:
Abro com 6♦4♦ no HJ e recebo call do botão e da BB. O flop vem A♠2♦6♥ e, com algum valor, decido dar check e não há acção na street. O turn é T♦ o que melhora a minha mão (par e flush draw). Perante novo check da BB, decido subir o pote e levo call do botão (Paulo Jorge, que viria a ganhar o torneio). O river é um 5h, que decididamente não ajuda ninguém. As minhas hipóteses são agora desistir ou blufar porque, sem dúvida que estou atrás na mão. Eu não conhecia o jogador do botão, mas sei que: 1. ele tem uma stack relativamente confortável; 2. a minha linha esconde a minha mão apesar do check no flop; 3. a linha passiva do Paulo e a forma reticente como pagou o turn permitem-me pensar que não está forte. Decido então que um bluff pode ter uma boa possibilidade de êxito se a aposta for grande suficiente para colocar o torneio dele em risco. Ele tem sensivelmente 330k para trás e penso que a aposta que mais me amedrontaria no lugar dele seria se me colocassem à volta de 2/3 da minha stack (que corresponde a 4/5 do pote). Aposto 230k. Na altura achei que o Paulo poderia ter um As sem kicker e, que a menos de A5, ele largaria. Pois bem, o Paulo pensou um bocado e pagou com 77! Ainda dei uma pequena gargalhada, porque mais um pouco e estava à frente… Seria a minha melhor value bet de sempre. Por engano… hehe
Fiquei reduzido a 400k (20BBs), mas ainda perfeitamente em jogo e não seria este pote que iria alterar a minha forma de jogar. Um jogador espanhol (Miguel Rivero) à minha esquerda estava constantemente a aproveitar a minha agressividade para ir allin e, assim, tive de apertar um pouco o range. Entretanto, tenho AK em UTG e, ao subir, o Miguel faz o movimento habitual (allin, de QTo). Call fácil e a mão aguenta e estou novamente com fichas. Com o encurtar da mesa, surge também a oportunidade de infernizar a vida aos demais. O Paulo lá ía pagando os raises pré-flop, mas se não ía à 1ª, ía à 2ª (flop) ou à 3ª (turn). Aparentemente, parecia que não acreditava que o pudesse voltar a “bluffar” depois daquela mão e lá ía desistindo. Com isto, regresso ao comando do torneio à entrada da mesa final.
Mesa Final
Com a mesa novamente cheia, era altura de voltar a apertar o range. Mesmo assim, nas primeiras vezes que abri o pote, perdi fichas, ou porque tive de pagar o allin e perdi, ou porque tive de desistir. Não baixei os braços e, começo a ganhar algumas fichas com roubos bem sucedidos. Isto começa a gerar algum aborrecimento em alguns jogadores.
Entretanto, o Victor Moreira, que se notava que queria começar a jogar, mas não arranjava oportunidade, aproveita um furo e abre o pote para 95k (blinds 20k/40k). Eu no CO, com quase o dobro da sua stack (650k), e com KsQs, vejo uma excelente oportunidade para fazer call porque a mão é muito interessante para jogar contra o seu range e ele vai ter uma dificuldade imensa em jogar o flop com 16bbs já que, qualquer continuação da aposta, vai obrigá-lo a gastar mais de 1/3 da sua stack. Dou call e o Rómulo vai allin na SB. O Victor fica completamente entalado e ali, como não tem monstro, teve de foldar. Mas o allin do Rómulo é de menos de 300k. O Rómulo deixou-me uma excelente impressão no torneio (bem como a sua namorada Sofia Mendes, devo dizer), mas aqui cometeu um erro. Achou que era uma boa oportunidade para “squeeze”, mas obviamente esqueceu-se de que as minhas odds ali são gigantescas e simplesmente não posso foldar. Na verdade, tenho de pagar 200k para um pote de 550k o que me dá odds de quase 3 para 1. Na prática, já só preciso que uma carta esteja viva para que compense o call. Sem demoras, dei call e ele até estava dominado.
Este pote foi bastante importante porque disparei na liderança tendo quase o dobro de fichas do 2º. Com 8 jogadores, blinds titânicas e com os lugares a serem pagos com intervalos já consideráveis, estavam criadas as condições para ter mesmo de jogar em bully mode. Lembro-me de pensar que o ideal era abrir todos os potes, mas não consegui chegar tão longe. Como havia muitos shorts, até deixei de me preocupar com contas de ter de pagar este ou aquele allin. A prioridade era subir e roubar blinds. Se levasse allin, logo faria as contas…
Em seguida, elimino o Carama que estava short, ao dar call de AJ e o pensamento anterior fica ainda mais reforçado porque saía um dos melhores jogadores ainda presentes. Aqui, o Paulo eliminou mais 2 ou 3 e eu entretia-me a roubar mais de metade dos potes. Sempre que tinha mão, aproveitava para mostrar, para dar mais legitimidade aos movimentos. Com apenas 5 jogadores e a pressão do peso dos escalões dos prémios cada vez maior, aumentei ainda mais a quantidade de raises conseguindo ganhar órbitas inteiras. Entretanto, como acontecia algumas vezes, levo um call do Paulo Jorge. O flop traz-me top pair numa board toda de espadas e faço shove directo. Ele tem um call destemido e muito difícil com top pair também, mas melhor kicker e dobro-o. Mais uns roubos e os restantes 3 estão agora a jogar apenas com um par de blinds acabando por ser eliminados.
HU
Comecei o HU com 60% das fichas em 50 blinds em jogo o que é terrivelmente pouco para explorar o jogo do adversário. O Paulo decidiu jogar muito agressivo o que, aliado à minha má “run” inicial, o levou a ganhar muitos potes e a inverter as stacks. Tive de adoptar uma estratégia de paciência e esperar por uma mão razoável para poder pagar o allin. Isto verificou-se quando vi QQ e, ao ganhar o pote, fiquei com 80% das fichas em jogo. Aparentemente o torneio estava decidido, mas o Paulo adensou a agressividade e foi allin praticamente todos os potes. Uma dinâmica já vista repetidamente era eu completar a aposta na SB e ele disparar allin directo. Na tentativa de provocar essa situação, paguei apenas com TT e ele deu check. Dei call ao allin num flop de Q high e com alguns projectos possíveis, mas ele tinha mesmo a Q, re-equilibrando a contenda.
De novo com stacks equilibradas, tive de arranjar formas de responder à agressividade do Paulo e as coisas estiveram equilibradas durante algum tempo até que, vejo um top pair num flop e pago o allin do Paulo que estava num projecto de cor. O projecto concretiza-se e ele vence o torneio.
Resumindo
Em primeiro lugar, repito os meus parabéns ao Paulo. Quanto a mim, adorei o torneio porque me diverti imenso e estou muito satisfeito com a minha prestação. Considero muito bom ficar em 2º lugar num torneio com mais de 300 pessoas, principalmente sabendo que, com esta estrutura, consegui o feito sem ganhar nenhuma mão em que estava inicialmente atrás. No entanto, o que mais me deixa satisfeito é que, não consigo encontrar nenhum erro nos meus movimentos durante os 2 dias. É estranho e deve ter havido algum, mas prefiro pensar que joguei bem
Venha o próximo!

Interessantíssima descrição do torneio, se calhar estás a partilhar demais a tua experiência acumulada..lol
Às vezes aprendo mais a ler um post num blog do que num livro inteiro. Este foi o caso
Gostei também do confronto com o Sarma. Em Agosto (ou foi Dezembro?) no Estoril tive o privilégio de o ver sentar-se na minha mesa carregadinho de fichas, 2 posições a seguir a mim. Efectivamente é muito agressivo a abrir utg, utg+1, lembro-me na altura que me vi obrigado a defender uma blind com 69s para estancar a sangria de várias órbitas. Mas largou quando teve de largar e passadas 2 ou 3 órbitas voltou ao mesmo. Devo confessar que com a minha curta experiência vi-me à nora com ele na mesa. Acho que após ler este teu texto, já não ficarei tão desorientado..
Segue-se Monte Carlo?
Boa sorte!
pastel
April 22nd, 2010 at 14:43permalink
E eu que nada, mesmo nada, percebo de pocker, gosto mesmo muito de te ler! Parabéns Tomé, por escreveres tão bem (e pelo 2º lugar!)
Paula F M
May 28th, 2010 at 18:38permalink