Se algo benéfico surgiu com a reportagem da SIC, foi, indubitavelmente, promover o debate sobre como a sociedade vê o poker. A semana passada foi, por isso, pródiga em discussões sobre o tema entre os membros da comunidade e não só. Confesso que já começo a acusar a monotonia das conversas uma vez que como, publicitei o blog no msn, skype e facebook, recebi muitos feedbacks aos posts, a maioria de pessoas que pouco ou nada têm a ver com o poker. Mas, apesar do relativo cansaço que o tema já provoca, não podia deixar de acrescentar mais umas ideias que me parecem importantes. E não poderia haver melhor altura, do que após um retemperante fim-de-semana prolongado na companhia da família e a desfrutar de um leve e saudável ambiente de amantes do poker no festival de Carnaval, na Figueira da Foz (fica, desde já, prometido um post sobre o tema).
Uma das ideias mais que me surpreendeu, foi a aceitação, mais ou menos comum, sobre o alvo da reportagem e que seria pior fazê-la incidir sobre jogadores bem sucedidos do que pessoas com problemas com o jogo, pelo simples facto de que esta última realidade é a mais abrangente. Na mesma linha, foi-me possível ler posts em blogs de colegas a defender que, de facto, existem bem mais pessoas com problemas com o jogo do que nós julgamos e, por fim, até vi outros a defenderem a sua posição nos fóruns com: “sim, sou viciado e depois? Isso não influencia negativamente a minha vida”.
Em primeiro lugar, não posso concordar que o alvo da reportagem foi bem escolhido. Primeiro, o intuito de uma reportagem destas não é o de prevenir problemas sociais, mas, tão simplesmente, informar. Depois, a reportagem foi feita no PCA, um dos torneios mais caros e reputados do mundo. O jogador do PCA não condiz com a imagem do jogador passada na reportagem. Ali estão os melhores.
Segundo, não posso argumentar sobre a grandeza do fenómeno de pessoas que se desgraçam com o poker. É verdade que ouço falar de casos de pessoas que têm uma gestão do tempo que dedicam ao jogo e da sua banca deficientes e isso, obviamente, vai trazer problemas. (Um aparte para lembrar que será também objectivo deste blog ajudar os leitores neste campo e este tema será abordado muitas vezes). O poker é extraordinariamente exigente e se é preciso disciplina, auto-controlo, motivação, persistência, gestão e equilíbrio em qualquer actividade, no poker vai ser preciso ainda mais. Acredito que quem tentar fazer dinheiro no poker e não estiver completamente ciente deste facto, não tardará a dar-se mal. Por isso, é possível que, quem não conseguir lidar e aprender com o insucesso convenientemente, possa ter problemas. Deve haver muitos, mas, a grande maioria das pessoas que conheço, tentaram levar as coisas a sério e estavam a par dos riscos. Uns deram-se bem, outros nem por isso mas vão lutando, outros ainda, perceberam que estavam no ramo errado. Daí a descontrolarem a vida devido ao poker vai um bom bocado.
Por fim, e é aqui que quero chegar, o uso do termo “viciado”. Mas o que é isto de ser viciado?
vício
(latim vitium, -ii)
s. m.
1. Defeito ou imperfeição.
2. Prática frequente de acto! considerado pecaminoso.
3. Tendência para contrariar a moral estabelecida. = depravação, libertinagem
4. Hábito inveterado. = mania
5. Dependência do consumo de uma substância (ex.: vício do álcool).
6. Erro de ofício.
7. Erro habitual no uso da língua.
8. Mau hábito ou costume que as bestas adquirem.
(Fonte: http://www.priberam.pt)
As definições 1, 6, 7 e 8 parecem-me desenquadradas do contexto, mas vejamos as restantes.
As definições 2 e 3 referem-se à moral e ao pecado e neste campo, a nossa sociedade tem telhados de vidro. Basta atentarmos no que vimos hoje desde que nos levantámos, para perceber que há muita coisa errada na sociedade dos nossos dias. Desde a falta de respeito no trânsito até ao mendigo que nos pediu dinheiro nos semáforos, passando por uma panóplia de notícias tristes nos jornais que vimos nas bancas. Mas, mesmo ignorando isto, será assim tão errado usar dinheiro para ganhar dinheiro? Ou o problema está em usar o dinheiro contra o dinheiro dos outros? Ou o dinheiro devia ser exclusivamente para outros usos? Poderia debater e arranjar paralelos sociais para todas estas questões, mas o post podia parecer quase um livro. De qualquer forma, já dei a conhecer a minha posição.
As definições 4 e 5 referem-se à prática repetida e à dependência. Será fácil de compreender que qualquer profissional tem de se dedicar a fundo na sua área para ser bem sucedido – tirando alguns casos na função pública J. Neste campo, a mania, como é referido, pode encontrar um outro termo em alternativa, paixão. Tenho um tio que tem uma garagem para automóveis e que compra e vende carros e acessórios para os mesmos e é muito bom no que faz. Não conheço ninguém que saiba tanto de carros e quando vou lá a casa, ou está na internet a ver novos modelos de carros ou está a ver televisão a ver um programa de carros ou está a ler uma revista… de carros. A vida dele não faz sentido sem automóveis e é feliz. Adora o que faz e isso traz dinheiro para a família. Que nome dão a isto? Mania? Obsessão? Paixão?
Quanto à dependência, estamos de acordo que o poker não é uma dependência química (álcool e drogas), por isso insere-se numa categoria mais social de onde fazem parte o trabalho e as compras, por exemplo. Cabe a cada um definir as prioridades de forma a que o próprio e os que o rodeiam se possam sentir bem. Se as prioridades não estão equilibradas, temos então um problema. No caso do poker, custa-me a acreditar que a dependência seja o principal problema. Poderei dar como exemplo o meu caso: defino objectivos e raramente os consigo cumprir, sempre por deficit. Ainda ontem fiz um plano para recuperar umas horas de jogo em atraso. Ontem consegui cumprir o plano, mas fiquei tão desgastado que, hoje, tive de desistir do plano passados uns minutos. E isto é recorrente. Analogamente, ouço colegas constantemente a queixarem-se de que cada vez jogam menos e estão saturados.
Rótulo social
O João conseguiu o emprego há relativamente pouco tempo. Teve tanta sorte que conseguiu entrar para os quadros da empresa a fazer exactamente o que mais gosta. Todos os dias acorda, bem cedo, cheio de vontade de fazer o melhor possível. Inicia o dia antes da hora e não se coíbe de sair uma ou duas horas mais tarde. O João é um funcionário exemplar para o patrão… O João está a ficar um workaholic para a esposa porque nem tem tempo para a família.
Mas então o que é ser viciado? Para mim não passa de um rótulo social associado a uma conotação negativa. Da forma de que a sociedade o coloca, para mim, ser viciado numa actividade implica daí advir consequências nefastas para o bem-estar de quem as pratica e isso ter-se-á que aplicar a cada pessoa individualmente e nunca como uma generalização atribuída a uma actividade.