17 Dec 2010
Motivação e Main Event Solverde 2010
Se há programas de televisão que eu dispenso são os “reality shows”. Não só por os considerar sem qualidade, mas principalmente pela sua natureza mexeriqueira que não me interessa. No entanto, eles têm de existir pela simples razão de que são uma mina de share e as televisões são, acima de tudo, empresas. Quanto ao povo português… tem a televisão que merece. Na verdade, normalmente, a minha televisão resume-se a desporto (não que seja um incremento significativo de qualidade) e a alguns pontuais programas de informação e documentários. No entanto – e porque o casamento tem destes sacrifícios
– ultimamente, tenho passado alguns finais de noite a assistir a um reality show. Passa na SIC mulher e chama-se “Biggest Loser”.
O objectivo é diferente de Big brothers e casas dos segredos porque existe um propósito. Passa pela escolha de americanos com obesidade mórbida que, no decurso do programa tentam perder o máximo peso possível. Depois é o mesmo, quem perder menos semanalmente, arrisca-se a ser eliminado. Agora imaginem uma pessoa de 200kg a passar 8 a 10 horas diárias num ginásio. Vários chegam a perder mais de 50% do seu peso ao longo das 30 semanas de programa. E isto só é possível com uma enorme dose de motivação que neste caso tem 2 nomes: câmeras e fama.
E esta introdução vem a propósito do meu torneio de Espinho, porque estava altamente motivado. Não pelo buyin, porque este ano participei em mais de um dúzia de torneios de buyin superior, mas por outras 2 razões. Primeiro, porque em 2009, fiz um dos piores torneios de sempre neste evento. Vinha de 2 bons resultados internacionais que acompanhavam uma boa upswing e talvez me faltasse a tal motivação. Depois, porque este torneio não deixa de ser o torneio principal do principal circuito nacional e é sempre apresentado com imensa pompa e circunstância e… a publicidade faz maravilhas.
Masters Solverde
Graças ao meu 2º lugar em Chaves a meio do ano, fiquei entre os 30 melhores do ano no circuito e fui jogar o Masters. Começou bem, depois mal perdendo uma jogada ridícula, mas acabei por conseguir dobrar com A9 vs AK. Quando estavam 18 jogadores, acabei por perder quando decidi apenas pagar um raise com AQs quando tinha 25bbs. O flop foi JJ2, dando-me flush draw e coloquei o meu torneio em risco contra AJ acabando por perder.
Main Event
No primeiro dia, estive numa mesa mista e a coisa foi decorrendo com altos e baixos moderados. Joguei com agressividade controlada e um pouco mais loose que o habitual porque perdi 2 potes significativos inicialmente que me colocaram abaixo de 20k. Depois fui recuperando e há 4 jogadas a destacar:
- Tenho à volta de 25k, blinds a 150/300(25). Estou na SB e ninguém se envolve até a acção chegar a mim que tenho ATo. Ainda não sei bem o que pensar da BB que já esteve envolvido em alguns potes engraçados, mas sem showdown. Subo para 900 e ele dá call. Flop TxTd5d e eu cbet para 1500, call. Turn 8x e eu aposto 3400 e levo raise para 9k. Penso um bocado, (para o teatro) e decido apenas dar call e fazer check no escuro para dar espaço para ele continuar o bluff. O river é Ad e infelizmente, o adversário não percebeu que havia feito check e, quando o alertaram, acabou por fazer um check atrapalhado para mostrar 95.
- Tenho a melhor mão do torneio em UTG+1 (KK) e UTG (jogador tight e agressivo) abre. Optei pelo call (tenho jogadores como o Addict e outros que podem achar isto um bom spot para squeeze). O jogador seguinte (da mão anterior) decide-se por fazer raise (3bet para 3.6k) e toda a gente folda até mim. Faço uma 4bet pequena para 1/6 da minha stack (7.2k numa stack de 43k) para tornar possível a leitura de que estou em raise/fold mode. Ele pensou imenso e acabou por desistir bem (JJ face up).
- Abro UTG com AJs e levo call do nosso conhecido jogador seguinte. Há fold até à SB que começa a ponderar. Ora, eu conheço o jogador e lembro-me perfeitamente de me ter dado 3bet/squeeze com KQ no masters do dia anterior. Para além disso, apesar de estar a fingir estar mais atento ao meu jogo no ipod, apercebo-me de que fez um pequeno movimento de quem se vai ver livre das cartas. Com esta informação tomei a minha decisão: ele raisou, e eu fui allin. Mas não contava que o UTG+1 tivesse dado call de QQ e que acabasse por pagar com as suas últimas 15 mil fichas. Após isto, também não contava ganhar a mão, mas foi o que aconteceu e foi o meu momento de sorte no torneio.
- Por fim, mesmo a terminar o dia (bb a 800) e após o “squeezer” da mão anterior ter caído para menos de 2 mil fichas e ter dobrado 3 vezes seguidas e ir pela 4ª vez consecutiva allin com 18bbs, decidi pagar com o meu AJ que perdeu para TT e terminei o dia na média, 40k.
No segundo dia, encontrei uma mesa fracamente acessível. Aliás já não me lembrava de estar numa mesa assim. Especialmente um senhor que estava a animar as hostes com raises constantes. Para além disso, tinha acabado de pagar allins em potes acima das 80bbs com KQ num flop de AQx que viria a ganhar com uma Q no turn e 74 num flop de 997 em que não teve a mesma sorte. Eu estava calminho a tentar controlar a stack e à espera do meu momento quando abro AJcc para 2700 em UTG (blinds a 600/1200). O senhor sobe para 5200 e eu fui ver. O flop foi um muito promissor KcQc5x em que decidi fazer check. Para minha grande surpresa, o senhor repetiu-me o movimentos e vimos uma blank no turn. Check novamente e ele apostou 12k que eu tive de pagar. Nova blank e tenho de desistir face ao camião que o senhor empurrou para o centro da mesa.
Já com apenas 26k, decido pagar na BB o raise do Afonso que havia chegado entretanto à mesa. Tenho QJ e vejo um flop QJT e, porque é um flop que vai conectar alguma coisa com um raise no CO e porque tenho a stack perfeita para induzir o shove, decidi-me pela “donk bet” (3700). A coisa corre como o planeado e pago o allin para ver o K7 na mão do adversário. Desta vez, a sorte não quis nada comigo e um A ditou o meu fim no torneio.
Ainda motivação e resumo
Estou a caminho do Estoril onde vou jogar a final do torneio de HU e ainda jogar o Main Event do circuito local e, o próximo post, será um resumo dos torneios e ainda um pequeno balanço, mas adianto já que este foi o ano em que mais seriamente me dediquei ao poker. Para além do coaching que me vai ocupando cada vez mais tempo, foi um ano em que pus de parte ambições a subir de níveis e me dediquei ao “grind”. A razão é que não necessito motivações extra e consigo ter uma vida bem mais descontraída jogando limites mais baixos. Outros podem-se dar ao luxo de arriscar subidas e viver a verdadeira adrenalina, mas eu não e não me arrependo. Já tive os meus dias de loucura e era lindo quando batia um nível e subia para o seguinte, mas também era terrível quando as coisas corriam menos mal e tinha de me vir ajustar cá em baixo novamente.
Temos excelentes jogadores portugueses a apontarem para metas altas e alguns já assinalam sucessos admiráveis, desejo-lhes a melhor sorte.



Quase 2 meses depois, volto a publicar algo. Não foi uma paragem planeada, mas surgiram uns constrangimentos que me tiraram o tempo e me obrigaram a atentar noutras prioridades. Mas o importante é que estou de volta. Dentro de uma semana, irei para Las Vegas onde vou jogar 3 eventos das WSOP, incluindo o Main Event onde gostaria de melhorar o meu 336º lugar do ano passado, mas até lá quero retomar e recuperar algum tempo e publicar um ciclo de artigos. Este ciclo será sobre o nosso dia-a-dia e o poker e terá 4 artigos: a ansiedade e o Poker, o sono e o Poker, o exercício físico e o poker e a alimentação e o poker. Vou também colocar alguns resumos de torneios deste ano.

